Capítulo 7 – Joe Chill

Ele tinha oito anos. Era apenas uma criança quando viu os pais serem assassinados diante de seus olhos. Um trauma irrecuperável, uma tragédia que mudou o rumo de sua vida para sempre.

Semanas depois do assassinato um homem foi preso e confessou o crime. Conhecido no submundo do crime como Joe Chill, era um bandido peixe pequeno, só tinha alguns assaltos e furtos na sua ficha policial. Nenhum assassinato. O crime intrigou a polícia, mas Chill depôs que o crime foi uma tentativa de assalto que acabou de forma inesperada. Devido a reação de Thomas Wayne, Chill se obrigou a atirar. Mas também atirou na sua esposa Martha, deixando apenas Bruce Wayne vivo como testemunha. Alfred informou dias depois ao jovem Bruce da prisão do assassino de seus pais. Bruce só perguntou:

-Ele vai morrer?

Mesmo sentindo-se surpreso com a pergunta fria e cruel da criança, Alfred manteve sua fleuma britânica e respondeu que naquele estado não existia pena de morte, mas tentou ser terno ao dizer que a justiça seria feita e o culpado ficaria preso pelo resto da vida. A tréplica de Bruce deixou Alfred horrorizado:

-Eu queria ele morto.

Enquanto crescia sua raiva não parecia diminuir, porém seu conceito sobre quem merece viver e morrer foi se alterando, para o alívio de Alfred. Quando completou doze anos Bruce foi enviado para estudar na Europa. Seu destino foi a Suíça, mas depois de quatro anos frequentando a escola, Bruce fugiu. Semanas depois Alfred recebeu uma carta. Ela tinha um selo do interior de Liechtenstein e era bem sucinta:

Querido Alfred,

Não posso mais continuar na escola. Não há nada lá para mim. Vou fazer meu próprio caminho. Sinto que meu destino é outro, mas tenho que descobrí-lo sozinho. Por favor não me procure, eu vou ficar bem.

Bruce

Na época a mídia não soube para qual escola o herdeiro do império bilionário da família Wayne tinha ido, e graças a discrição dos suíços, ninguém soube que ele tinha sumido. Ficou registrado apenas que ele havia saído do país para estudar e o assunto foi esquecido.

Oito anos depois da carta Alfred recebe um telefonema. Bruce estava voltando. Não havia como dimensionar o quanto de surpresa e o quanto de alegria o mordomo sentia. Mas apenas de ouvir a voz do patrão, agora não mais um adolescente e sim um jovem adulto, ele sabia que nada mais seria como antes. Por todos os anos de ausência de Bruce, ele sentia a angústia diária de não saber o paradeiro de seu patrão, mas por outro lado algo lhe dizia que ele sabia o que fazia, mesmo sendo só um garoto. Inteligência muito acima da média, uma imaginação incrível e uma força de vontade que ele nunca tinha visto faziam com que o mordomo acreditasse que Bruce podia se safar no mundo lá fora. Após a rápida conversa ao telefone ele tinha certeza disso.

Uma das primeiras coisas que Bruce Wayne fez ao voltar a Gotham foi procurar o policial que solucionou o caso do assassinato de seus pais. A agitação na delegacia foi notável quando o há muito sumido herdeiro Wayne adentrou o recinto procurando por James Gordon. Na época do duplo homícidio o detetive James Gordon era um recém chegado da polícia de Chicago, transferido por problemas de relacionamento com seus superiores. Dizem que na verdade ele era incorruptível, o que fez ser mandado para Gotham, ironicamente ou não, uma das cidades mais corruptas da América.

Desde então Gordon só cresceu na polícia. Ganhou fama e chegou a tenente. Conquistou muitos desafetos dentro e fora da corporação, mas a boa imagem perante a opinião pública lhe ajudaram a receber o devido reconhecimento profissional. Duas batidas na sua porta de vidro e ele acena para que o rapaz entre.  Gordon como bom policial com anos de experiência o analisa de cima abaixo. Vestido com roupas caras, quase um metro e noventa, corpo atlético, olhos azuis e cabelo escuro como piche. Bem diferente do garotinho que ele conheceu anos atrás.

-Seja bem-vindo senhor Wayne. A saudação de Gordon surpreendeu seu visitante.

-Como o senhor me conhece?

-Sabe como é, os jornais adoram noticiar o retorno de herdeiros bilionários que ficam anos no exterior. Retrucou Gordon com um meio sorriso no rosto.

-Oh, é claro tenente. Que ingenuidade a minha. Afinal estou tratando com o grande James Gordon, famoso herói de Gotham…os jornais também dizem isso. Bruce não tinha nenhum tom de ironia na voz.

-Só cumpro meu dever senhor Wayne, mas em que posso ajudá-lo?

Após uma pausa, Bruce responde calmamente:

-Você solucionou o caso da morte de meus pais. Como deve se lembrar eu era apenas uma criança e não entendia muito o que estava acontecendo. Só soube que o homem responsável foi preso e está preso até hoje…

-E assim vai permanecer pelo resto da vida, interrompeu Gordon.

-Eu tenho certeza que sim, mas eu gostaria, se fosse possível saber mais detalhes sobre o caso. Isso se não for tomar muito do seu tempo, sei que deve ser muito ocupado.

Gordon dá um leve suspiro, encara o jovem e diz:

-É o mínimo que posso fazer por você. Aceita um café?

-Não, obrigado.  

Gordon oferece a cadeira a sua frente com um gesto e acessa em seu computador as pastas de casos encerrados. Bruce Wayne senta com a postura ereta e olhar determinado.

O tenente encontra a pasta e começa a contar os detalhes do caso. A suposta arma do crime foi encontrada no esgoto não muito longe do local da morte de Thomas e Martha Wayne. A arma tinha um fragmento de impressão digital. A balística comprovou que foi dela que sairam os disparos que vitimaram o casal. Algumas testemunhas viram dois homens no beco e conseguiram descrevê-los, sem muitos detalhes, mas o suficiente para cruzar as informações com as digitais em nosso banco de dados. Um dos suspeitos era Joe Chill, com passagem na polícia por alguns furtos, assalto a mão armada e receptação e venda de objetos roubados. Chill foi encontrado e interrogado. Mas ele não demorou muito para assumir sozinho a autoria do crime. Foi até estranho o modo como ele confessou, sem muita pressão. Mas não havia muito o que fazer. Ele assumiu a culpa sozinho, deu detalhes de como o crime tinha ocorrido, não havia motivos para desconfiar dele. Então Chill foi julgado e sentenciado a prisão perpétua pelo crime hediondo.

-Mas tenente, interrompe Bruce, foi apenas isso? O homem admite a culpa e caso encerrado, não existia a possibilidade de haver algo mais nessa história?

-Claro que sim. Seus pais eram pessoas públicas de Gotham, o fato de serem assassinadas por alguém que nunca havia cometido esse tipo de crime me chamou a atenção. Poderia haver outra motivação do que simplesmente um roubo, poderia haver um mandante? Alguém com motivos para se beneficiar da morte de seus pais? Chill foi apenas uma peça da engrenagem. Alguém fácil de pegar e que se mostrou incrivelmente fiel…claro se é que houve um mandante. Ou Chill foi apenas atrapalhado.

-Mas o que o senhor descobriu? Alguma evidência de que havia um mandante? pergunta Bruce ansioso.

-Chill não entregou seu suposto contratante. Então eu interroguei todas as pessoas que tinham alguma ligação de negócios ou pessoal com seus pais. Eles eram bem vistos por todos, a fundação Wayne e o hospital mantido por ela, as escolas, as doações para pesquisas de todo tipo, seus pais eram o alicerce dessa cidade…

-Mais um motivo para alguém querer a morte deles. Essa cidade é contaminada pela corrupção. Nas empresas privadas, na prefeitura, na polícia…

-Um momento senhor Wayne! Gordon exclama com impaciência.

-Eu apoio todas as investigações de corrupção que a corregedoria vem fazendo aqui. Não somos perfeitos, mas estamos melhorando.

-Mil perdões, tenente. Não quis insinuar nada. Apenas quis dizer que pessoas honestas não são bem vistas por todos os cidadãos de Gotham, existem pessoas que só visam o lucro pessoal e elas estão em todos os setores, mas não estou acusando ninguém.

-Eu sei, eu entendo. Isso certamente me passou pela cabeça e eu garanto que fui a fundo para tentar descobrir a verdade. Mas o que eu estou dizendo é que nenhuma pessoa próxima a seus pais levou vantagem direta com a morte deles. Nenhum tinha sequer motivos. Se Chill estava agindo a mando de alguém vai morrer com esse segredo.

-Eu entendo. Confio plenamente na sua palavra tenente, diz Bruce baixando a cabeça. Levanta e estende a mão para Gordon.

-Obrigado. O senhor prendeu o assassino de meus pais e o levou a justiça. Nunca vou esquecer isso. Gordon sem ter o que dizer apenas acena com a cabeça de forma desajeitada.

A sair pela porta Bruce se vira e pergunta:

-E quanto ao cúmplice de Chill?

Ah, Jack Napier. Nunca foi encontrado.

Três anos depois.

Caverna estou voltando.

-Algum ferimento grave senhor?

-Não. Estou bem.

-E quanto aos incêndios?

-Criminosos, como eu imaginei. Por sorte nenhum ferido grave. Foram provocados por Garfield Lynns, um perito em efeitos especiais para o cinema. Especialmente fogo e explosões. Pelo que averiguei ele está ressentido por que o cinema atual usa efeitos digitais e seus serviços são cada vez mais desnecessários. Tenho certeza que será diagnosticado como piromaníaco. Mas o pior vem agora. Ele se auto nomeou Vagalume.

-Mais um criminoso excêntrico e com nome idiota para a galeria de Gotham. E seu novo veículo?

-Está ótimo. Porém é muito chamativo. Estou usando a linha expressa Aparo para ir e voltar da cidade. Os trilhos originais abandonados que estão abaixo da nova linha são perfeitos para circular sem ser notado. Mas mesmo assim preciso apressar a construção de um novo Morcego. Falarei com Fox em breve. Acho que devo desculpas para ele. Me sinto culpado pelo seqüestro. Preciso falar com você também quando chegar.

-Estarei bem aqui senhor.

Batman acelera sua moto, ou algo muito parecido com uma moto, em direção a caverna. Enquanto isso reflete sobre as últimas semanas. Após resgatar Fox, não recebeu nenhuma informação relevante de Face Falsa. Mas ele continua em contato para demonstrar sua fidelidade. Mas tudo pode acontecer. Depois de alguns dias se recuperando de ferimentos, Bruce Wayne teve uma reunião com o doutor Arkham, sobre Crane. Porém a conversa teve um rumo inesperado e Arkham deixou transparecer algo contra Bruce. Alfred então lhe contou sobre o passado das famílias Wayne e Arkham e de sua antiga rivalidade. Após essas revelações começou a suspeitar do comportamento estranho de Jonathan Arkham e resolveu investigar em velhos documentos de seu pai, para descobrir se havia alguma ligação entre ambos. A pesquisa se mostrou complicada pela quantidade de papéis e sua desorganização. Por isso Bruce pediu para Alfred continuar a procura, enquanto ele agia nas ruas de Gotham. Junto com isso outra pesquisa começou. Jack Napier, a única pessoa que pode esclarecer alguns pontos sobre a morte de seus pais. O crime teve um mandante?  E um conhecido estaria envolvido?

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O doutor Jonathan Arkham olha para o memorando colocado na mesa a sua frente. Nele há centenas de palavras, mas ele só consegue distinguir duas: Hugo Strange.

A informação veio da diretoria da Fundação Wayne. Fica claro que em troca de melhores recursos o asilo precisa admitir o psicanalista Hugo Strange, que deve chegar a Gotham em poucos dias. E isso não é um pedido. É só um aviso. Arkham sente-se desrespeitado e humilhado. Um Wayne mais uma vez trazendo problemas para ele e o legado de sua família. E se Strange for um espião de Wayne? E se ele descobrir o que se passa aqui dentro?  Arkham sabe que a solução pode ser sua droga de controle mental. Porém ela ainda não está pronta para ser usada misturada com um chá por exemplo. E o controle só se estabelece depois de um uso contínuo da droga. Dessa forma ainda não é possível usá-la em seu inimigos. Não ainda. O que significa que o paciente um oito nove logo terá novidades. A mente e a força de vontade de Crane são fortes. Se a droga funcionar nele, funcionará em qualquer um, divaga Arkham.

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Na caverna Batman conversa com Alfred. O velho mordomo tem estado mais calado do que de costume, devido ao fato de não concordar com os métodos utilizados recentemente por seu patrão. Isso não o impede de continuar auxiliando e opinando, mas com certeza causa um mal estar entre ambos.

-Senhor a pesquisa que o computador fazia sobre Jack Napier terminou. Porém fico em dúvida sobre o motivo dessa busca. Porque remexer em um crime já solucionado?

-Tenho que discordar Alfred. O crime não foi solucionado. Pelo menos não satisfatoriamente. Creio que Chill foi contratado para assassinar meus pais. E também desconfio de quem possa ter sido o mandante. Mas não quero acusar ninguém por enquanto. Napier pode me dar informações que vão me levar em direção a minha teoria, ou me levar em direção oposta. Veremos.

Alfred não responde. Ele sabe que ao remexer no passado não são apenas poeira e teias de aranha que surgem. Ele desconfia que seu patrão já tem um suspeito e que uma velha rivalidade pode voltar depois de já ter sido a muito esquecida. Mas no momento ele apenas aguarda e apóia, mesmo que não esteja de acordo com tudo que ele faz.

Com um comando de voz as informações aparecem nos monitores.

-Aparentemente Napier sumiu a quase vinte anos. Porém as câmeras encontraram imagens de alguém que poderia ser ele. Cabelo escasso e de outra cor, bigode, boné, óculos, uns quilos a mais. Pode ser ele.

-Mas senhor, porque ele ainda estaria em Gotham? Se teve a chance de sumir por tanto tempo porque voltar para cá?

-Eu não sei. Mas veja, as poucas vezes que as câmeras o flagaram, ele estava na mesma região de Gotham. E aqui vemos ele entrando em uma tabacaria. Depois ele sai com uma grande caixa.

-Ele deve fumar muito, diz Alfred com ironia.

-Meu palpite é que ele trocou de identidade, mas continua cauteloso. E suas idas esporádicas a essa tabacaria são tudo o que temos para investigar no momento. Amanhã farei uma visita ao dono dessa loja.

-Devo ter pena desse pobre comerciante do ramo do tabaco?

-Não Alfred. Vou apenas conversar e ver o que ele pode me dizer sobre sua clientela. Só isso. Ninguém vai se machucar. Eu garanto.

-Que sorte. Vou me retirar agora.

-Como esta a pesquisa com os documentos de meu pai?

-Ainda há muito pra ser verificado. Estou me dedicando o máximo possível a essa pesquisa.

-Obrigado Alfred. Qualquer menção ao asilo Arkham ou ao seu diretor me informe por favor.

-Com certeza mestre. Com licença.

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A doutora Quinn caminha em direção a cela do paciente um oito nove com um sorriso no rosto. Uma conversa, um café juntos e o guarda O’Connor já está apaixonado por ela. Assim fica fácil conseguir acesso a cela de Crane já na sua segunda visita ao cofre. Pobre homem. Mas muito útil também, pensa Quinn.

Já dentro da cela, Crane fica surpreso e até um pouco assustado com a presença da estranha. Mas depois de algumas palavras amenas e tranquilizadoras de Quinn, Crane se acalma e rapidamente a doutora ganha a sua confiança. Ambos começam a conversar normalmente.

-O que o doutor Arkham está fazendo com o senhor? Ele está lhe dando algum medicamento?

-Haha, medicamento? O maldito esta me drogando com uma porcaria que ele inventou.

-Como assim doutor? Do que se trata?

-Esse maluco desenvolveu um composto que administrado em humanos os fazem obedecer ordens praticamente sem questionar. Ele vem aplicando isso em mim. Depois ele faz testes e eu obedeço. O composto funciona, mas falta muito para essa droga dele ser realmente eficiente. Ela está tendo efeito em mim, pois estou recebendo doses regularmente durante um bom tempo. Para ela agir plenamente e em dose única, esse composto teria que mexer também com os instintos básicos do ser humano. Aí seria possível um controle mental completo. Mesmo assim eu faço tudo que ele manda. Não consigo impedir, é mais forte do que eu. Nesse momento o doutor Crane parece realmente abalado.

-Pobrezinho. Mas o que ele manda você fazer?

-Primeiro eram testes banais, responder perguntas. Mas depois foi piorando. Na última vez ele me mandou comer minhas fezes.

Quinn arregala os olhos verdes.

Eu resisti. Mas foi por pouco.

-Isso é horrível. Eu não posso permitir que isso continue…

-Mas quem é você afinal? O que está acontecendo aqui?

-Doutor eu vou lhe explicar tudo. Por favor preste a atenção pois não tenho muito tempo.

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A tabacaria Melvins fecha sempre as sete horas da noite. Seu dono Henry Melvin é que atende na pequena loja. O crepúsculo é cedo em Gotham nessa época do ano, então já está bastante escuro para Batman poder agir quando Henry começa a fechar a loja. Entrando pelos fundos ele surpreende o dono de tal forma que o homem quase desmaia. Passado o susto vem o medo e ele pensa: o que Batman quer comigo?

-Você recebe um cliente aqui umas duas vezes por ano. Esta é uma foto dele saindo de sua loja. Indo direto ao assunto. Me fale tudo que sabe sobre ele.

-Mas eu não…

-Vamos homem. Se não falar logo eu perco a paciência. Você não quer que isso aconteça, não é?

-Ok, ok. Deixa eu ver melhor essa foto. Hum, sim, sim…ele se chama Bob. Vem aqui de vez em quando e leva caixas de charutos. Pelo que eu sei, ele contrabandeia esses charutos pra dentro de um lar de idosos, mas eu não sei qual…

-O que mais?

-Eu não sei. Eu não faço perguntas pros meus clientes. Ele paga em dinheiro e vai embora. Olha, meu negócio é legal. Meus charutos nem são cubanos, pode conferir. É tudo que sei. Eu juro. Por favor…

-Já chega. Só quero saber mais duas coisas. Me dê a descrição exata de como ele é e qual marca de charutos compra.

Minutos depois Batman está no topo de um prédio.

-Caverna, na escuta?

-Sim senhor.

Alfred pode estar com um péssimo humor ultimamente, mas sua eficiência ainda é inquestionável.

-Preciso de uma lista dos lares para idosos de Gotham.

-Checando senhor.

Segundos depois.

-Estou com a lista aqui.

-Certo. Agora ordene a lista pelas que tem as mensalidades mais caras primeiro.

-Ok. As três primeiras da lista tem um custo consideravelmente mais alto do que a quarta colocada.

-Dessas três, alguma fica em um bairro mais afastado do centro?

-Sim, uma delas fica próximo ao aeroporto Goodwin. As outras ficam na ilha.

-Me passe o endereço. É para lá que eu vou.

Algum tempo depois Batman espreita o lar de idosos ricos que fica próximo a um bosque, no norte de Gotham. Segundo Henry, a marca de charutos que Bob compra é muito cara. Um prazer para poucos em Gotham. Por isso o melhor palpite é que o lar de idosos onde ele trabalha seja esse. A segurança do local é reforçada, mas nada que impeça Batman de entrar com facilidade. Usando as sombras como camuflagem, localiza Napier, ou Bob. Ele está entrando em um pequeno prédio nos fundos do terreno. Uma espécie de almoxarifado. É o momento perfeito para surpreendê-lo.

Antes que Bob acenda a luz e feche a porta, Batman o empurra para dentro da sala escura. Automaticamente o homem se vira e tenta atingir com um soco quem o empurrou, mas seu golpe passa em branco. Ele se desequilibra e cai no chão. Agora Batman acende a luz e Bob pode ver quem ele iria enfrentar. O medo o paralisa e Batman percebe isso.

-Olá Jack Napier. Arrumou um emprego e tanto. Por sinal, belo uniforme.

-Meu nome é Bob. Não sei do que está falando.

-Estou com pouca paciência hoje cretino. Então vamos ser objetivos. Apesar da aparência e do nome diferente sei que você é Jack Napier. Não achou que voltaria para a cena do crime sem ser percebido? Você foi cúmplice de Joe Chill no assassinato do casal Wayne. Isso já foi provado. Eu só precisava localizar você.

-Mas pra que? O que você quer comigo? Eu não fiz nada. A culpa é do Chill, ele assumiu tudo.

Batman ergue Napier pelo colarinho e o joga contra a parede.

-Primeiro: sou eu quem faço as perguntas. Segundo: de acordo com as respostas, vou julgar se você tem culpa ou não. Como você já admitiu ser Napier, está na hora de me contar exatamente qual seu envolvimento no crime. Você pode falar agora ou depois que eu quebrar todos os seus dentes.

Napier baixa a cabeça por um instante.

-Bom, você me pegou mesmo. Depois de todos esses anos achei que tinham esquecido de mim.

-Você não foi esquecido. Agora pare de enrolar. Conte tudo o que aconteceu naquela noite. Como foi a preparação de vocês, o que fizeram depois. Fale!

Após um longo suspiro Napier começa a falar.

-Eu e Joe somos amigos de longa data. Ele sempre me chamava pros esquemas dele e vice-versa. Um dia ele me ligou. Precisava de minha ajuda para um serviço. Seria algo rápido e uma grana boa. Eu só precisava ficar vigiando. Aceitei é claro. Mas ele não quis dar maiores detalhes quando eu perguntei. Ele só disse que me avisava quando fosse a hora. Uma noite ele me ligou e fui encontrá-lo na frente de um cinema. Foi aí que ele explicou o plano. Eu ficaria vigiando no fundo do beco que tinha ao lado do cinema. Joe iria ficar na frente, para verificar a saída do cinema. Quando ele visse uma determinada família saindo, correria para o fundo do beco. Nós pularíamos uma cerca para dentro de um estacionamento, onde a família havia colocado o carro. Abordaríamos eles quando estivessem embarcando e iríamos com ele até algum lugar deserto. Chill ficaria com o homem e eu levaria a mulher e a criança para casa. Eles não eram o alvo e não deviam ser machucados. Chill não quis me dizer quem eram e nem o que ia fazer, mas fico claro que ele ia apagar o cara. Eu conheço Joe a anos. Apesar de ser bolado de improviso, o plano era bom e ele disse que ia me dar metade dos cinco mil dólares que ia receber.

Esse foi o preço da vida de meus pais, pensa Batman. Cinco mil dólares para arruinar uma família inteira. A vontade dele agora era esmigalhar todos os ossos de Napier com as próprias mãos. Mas é preciso foco, concentração. Esqueça a raiva. Pelo menos por enquanto. Napier continua.

-Eu aceitei, apesar de eu não gostar da idéia. Mas foi aí que tudo deu errado. Quando Joe estava indo para sua posição a família saiu pela porta lateral bem antes do fim do filme. Joe ficou de frente pro seu alvo. Não dava mais pra continuar no plano. Então ele fez o que tinha que fazer. Quando ouvi os tiros soube que tinha dado tudo errado. Mas fiquei na minha posição. Joe correu até mim e fugimos. Mas ele atirou no casal muito perto da rua. Ele foi visto. Não sei se foi por isso, ou outra coisa, mas ele estava apavorado. Eu tentei acalmá-lo e seguir o plano. Passamos pelo estacionamento, mas alguém deve ter nos visto e a polícia com certeza teria a descrição de dois homens correndo do local de um crime.  A coisa só piorava. Fomos até a quinta com a vinte sete e um taxista nos entregou uma chave. Com ela abrimos um armário na estação de ônibus, pegamos o dinheiro e cada um foi pra um lado. Joe me disse pra sumir por um tempo. E foi o que eu fiz. Mais tarde naquela noite fiquei sabendo quem Joe tinha matado e fiquei puto com ele. A família mais importante de Gotham assassinada de forma tão atrapalhada, em plena rua. Óbvio que isso ia dar merda. Era minha deixa pra sair da cidade. Peguei minha grana e um carro velho e fui para Metrópolis. Eu conhecia um cara que fazia identidades falsas lá. Comprei uma e vivi lá por uns anos. Mas aquela cidade não é pra mim, por isso voltei para Gotham. Como Joe tinha assumido toda a culpa e meu nome não foi mais citado como procurado, relaxei. Eu já tinha uma nova identidade, um novo visual. Voltei para minha cidade e procurei levar uma vida honesta.

-Contrabandeando charutos.

-Ok, ok, mas eu só quero trazer algum prazer pra esses velhinhos no f…

-Isso não me interessa. O crime de assassinato ainda não preescreveu. Se eu levá-lo a justiça como cúmplice, você deve pegar algumas dezenas de anos.

-Eu sei. Você tem razão. Mas não pense que o remorso não martelou minha cabeça volta e meia. Na verdade eu nem devia ter aceitado isso tudo. Eu não sou assassino, assim como o Joe.

-Ele não era.

-Pois é…eu mereço ser punido. Pode me levar. Acho que já aproveitei a vida mais do que merecia.

Napier estende os pulsos em direção a Batman.

-Eu não vou lhe entregar. Ainda não. Meu interesse é no mandante do crime. Que pagou para Chill matar os Wayne?

-Eu não sei. Joe não me contou, apesar que eu insisti com ele. Ele só dizia que devia ser feito, que ele não tinha escolha. Eu achei estranho porque os cinco mil nem eram tanta grana assim para ele ficar tão obcecado.

-Para o seu bem espero que esteja falando a verdade.

-Eu estou. É tudo verdade…

-Se eu conseguir confirmar sua história vai ficar tudo bem. Agora se você mentiu pra mim, a cadeia vai ser um parque de diversões perto do que vou fazer com você. E saiba que vou lhe monitorar o tempo todo. Nem pense em um fugir da cidade. 

Napier balbucia alguma coisa inteligível. Batman ainda continua com vontade de espancá-lo, mas bater em um homem de mais de cinqüenta anos não está em seus planos. Por mais que ele mereça, essa noite ele não vai apanhar.

-Chill tinha esposa, namorada ou família?

-Não. Espera um pouco…acho que ele tinha uma irmã mais nova. Mas ele não falava muito nela. Acho que porque ele não podia criá-la depois da morte de seus pais, por causa da sua ficha criminal. Acho que ela estava em um orfanato.

-O nome dela?

-Acho que era Maxine.

Batman se vira para sair, Napier esta com os olhos vidrados nele.

-E Napier… chega de charutos.

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-Vou manipular a escala de horários dos guardas. A menina que cuida disso é bobinha e posso afastá-la da sala facilmente, então eu mesma altero a escala e coloco um guarda dos meus para cuidar dessa ala no dia e horário certo. Três dias depois começarei uma distração. Meu cartão de acesso permite abrir celas de segurança mínima e média. Vou soltar alguns pacientes mais agitados e eles vão começar um tumulto, chamando a atenção de todos, explica Quinn.

-Mas e as câmeras de segurança? Vão pegar você quando estiver soltando os malucos.

-Aí é que entram meus amigos. Vou receber ajuda de fora. Exatamente as dezenove horas e cinqüenta minutos as câmeras irão parar de funcionar em todo o asilo por dez minutos. Temos esse tempo para tirar você daqui. Depois de soltar os doidos eu corro para cá. Peço ajuda com o tumulto para o meu guarda e pego seu cartão sem ele perceber. Quando ele for ajudar eu entro aqui e o senhor já vai estar com sua roupa. Seu relógio esta sincronizado com o meu, fique de olho nele. Saímos dessa ala e temos que seguir para o corredor a direita e depois esquerda. Vai haver tumulto por todo lado, então se passarmos correndo não chamaremos tanta a atenção. O asilo não é uma prisão de segurança máxima, fora as câmeras não temos guardas em todo canto. Por isso vai ser fácil atravessar algumas alas até chegarmos a uma porta que vou deixar previamente aberta e descemos as escadas até o depósito de lixo. Se fizermos isso tudo em cinco minutos chegaremos a tempo de pegar o caminhão de lixo se preparando para sair. O funcionário do depósito sempre dá um sinal para o motorista para ele fechar a caçamba para só depois poder fechar a porta do depósito. É nesse meio tempo que você entra no caminhão.

-Mas e o funcionário?

-Deixe ele comigo. Depois que sair do asilo você será seguido por dois carros que abordarão o caminhão quando estiverem em um lugar adequado. Os homens vão tirar você de lá e levá-lo a um lugar seguro. Vou encontrá-lo lá depois. Já vai haver roupas limpas para você usar e comida. É tudo muito simples.

-Mas o guarda vai saber que foi você que me soltou. Vão pegá-la e forçá-la a me entregar.

-Esses pormenores eu resolverei doutor. Confie em mim. Eu tenho tudo sob controle.

-Parece um plano perfeito, mas eu não sei. Porque confiar em você? Qual sua vantagem em me tirar daqui? E o que você quis dizer com quem me ajudou poderia fazer de novo?

-O senhor é um homem muito inteligente. Já deve ter percebido. Suas experiências com a droga do medo são famosas e admiradas entre determinadas pessoas. Pessoas que viam o potencial, a verdadeira força e o poder que aquilo representava. Essas pessoas queriam investir no senhor. E foi o que fizeram. Foi bom poder continuar suas pesquisas com todo aquele equipamento de milhares de dólares, os capangas para lhe ajudar, as cobaias humanas, os contatos para a venda da droga, não foi?

-Como você…

-Doutor, você não acha que íamos abandoná-lo agora, depois de tudo o que o senhor fez por nós?

-Eu não sei quem me ajudou. Eu falava com um intermediário.

-Eu sei de tudo meu bom doutor. Está tudo bem. Logo você vai conhecer ele.

-Mas o que vocês querem de mim? Produzir mais drogas?

-Sim, mas dessa vez uma nova droga. Uma droga muito mais valiosa e poderosa. Você mesmo disse que o composto do doutor Arkham precisaria mexer também com os instintos básicos não é? Como o medo por exemplo. Veja o potencial disso. Combinando sua pesquisa com a dele e a droga de controle mental seria possível. Vendido no mercado negro, apenas para as pessoas que podem pagar o preço de uma arma poderosa como essa, poderíamos lucrar milhões. Viveríamos a vida que quiséssemos, faríamos qualquer coisa.

Ao dizer isso Quinn abre um sorriso e inclina o corpo em direção a Crane. A mão dela toca a dele suavemente.

-Parece que vocês já tinham tudo planejado então?

-Em parte sim. Ajudamos você ao invés de pedir ajuda, ou que trabalhasse conosco. Pode ter sido um golpe baixo, mas o senhor aceitou e obteve seus resultados. Não era isso que você queria? Agora só estamos expandindo nossa parceria.

-Mas digamos que eu aceite, ainda precisamos das fórmulas do Arkham.

-Eu sou o braço direito dele aqui. Ele confia totalmente em mim. Eu já vinha observando ele a um tempo. Sabia que ele medicava alguns pacientes aqui no cofre secretamente. Alguma coisa estranha havia nisso. Mas até agora não sabia que ele desenvolvia essa droga. Nós só queríamos tirar você daqui. A droga Espantalho era muito promissora e meus aliados queriam continuar com isso. Mas agora novas possibilidades aparecem.

-Quer dizer que você pensou nisso agora mesmo?

-Sua fuga já estava planejada. Se minha idéia de mesclar as drogas for aceita farei de tudo para colocar as minhas mãos na pesquisa de Arkham e sei que vou conseguir. O resto é com o senhor. A escolha é sua. Não gostaríamos de vê-lo apodrecer aqui embaixo como uma cobaia.

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-Deixe me ver se entendi bem, senhor Cobblepot. O senhor elaborou um plano de seqüestro que na verdade seria uma armadilha para matar o Batman. O Estripador foi uma distração para Batman não atrapalhar o seqüestro.

-Exato.

-Então você colocou três assassinos bem treinados e mais de vinte homens bem armados para pegar Batman e ainda assim ele derrotou todos.

-Sim, mas…

-Não sei se fico mais impressionado com o Batman ou com sua incompetência.

-Escute aqui seu velho bastardo…

O que se segue são uma serie de xingamentos de ambas as partes. Na escuridão da sala vazia ao lado da sala de Cobblepot, Face Falsa tenta ouvir a conversa utilizando um dispositivo que amplia a audição. Ele não descobriu nada ainda, mas acha que vai conseguir. O que ele não sabe é que também está sendo observado.

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