Capítulo 8 – Hugo Strange

 

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Depois da conversa com Napier, Batman está de volta a caverna. Apesar de estar completamente focado em descobrir quem foi o mandante do crime que vitimou seus pais, ele não consegue deixar de pensar nas descobertas que fez ao interrogar Napier. Sua mãe poderia estar viva até hoje. O crime foi encomendado visando apenas Thomas. Mas o que aconteceria se o plano tivesse seguido seu curso? Será que seu pai aceitaria ser levado para a morte em seu próprio carro sem reagir? Ele teria tempo de se despedir assim que percebesse o que iria acontecer? Sua mãe reagiria como? Como seria a sua reação? Poderia ser feito alguma coisa? A morte deles poderia ser evitada?

Tantas perguntas para as quais não há respostas. Mas o pior, o que o destrói por dentro é o fato de que se tivessem pelo menos saído do cinema no final do filme, as coisas já poderiam ser diferentes. O sentimento de culpa o invade. Foi o pequeno Bruce que ficou com medo do filme e quis sair antes do final. Por que teve que ser assim? Bruce suspira, baixa a cabeça e tenta se concentrar, pois não adianta remoer isso agora. Nada vai mudar. O que precisa ser feito é descobrir quem foi o responsável verdadeiro. Jack Napier e Joe Chill tem sua parcela de culpa, óbvio. Mas os dois foram apenas peças de uma engrenagem que foi colocada em movimento por outra pessoa. É preciso voltar sua atenção para a verdadeira busca. Quando for a hora Napier irá pagar, junto com o desgraçado que os pagou.

Agora ele pesquisa no computador antigos registros de orfãs. Em poucos minutos ele encontra o que procurava. Maxine Chill deu entrada no orfanato Willowwood vinte e dois anos atrás. Ela tinha apenas nove anos de idade. O pai sumiu logo que ela nasceu e a mãe morreu poucos anos depois. Seu único parente vivo era o irmão mais velho, que na época cumpria pena na prisão do condado. Ele não podia ter a guarda da irmã e ela ficou no orfanato. Mas é mais estranho o que vem a seguir, ou melhor, o que não vem. Três anos após sua chegada ao orfanato seus registros somem. Não há mais nada. Porém quando uma criança é adotada, tudo é registrado. O nome dos novos pais, endereço, fichas de acompanhamento de como está a adaptação da criança. Mas não havia nada disso. O registro se encerra abruptamente e não há nenhuma informação sobre a menina depois disso. Agora apenas uma pergunta ecoa na mente de Batman: o que aconteceu com você Maxine?

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A psiquiatra Harley Quinn está sentada e distraída em sua sala no asilo Arkham. Ela balança uma caneta entre os dedos, como se isso a ajudasse a clarear as ideias. Em alguns dias ela vai auxiliar Crane a fugir do asilo. Uma serie de coisas podem dar errado na fuga, arruinando tudo o que foi planejado. Porém não é essa questão em particular que mais a preocupa. Ao descobrir sobre as experiências que o doutor Arkham esta realizando um novo horizonte se apresentou para ela e seus aliados. Mas como conseguir a pesquisa de Arkham? Ele sempre pareceu confiar em Quinn, porém ultimamente houve um afastamento e agora ela sabe que isso se deve ao fato de Arkham estar obcecado em obter resultados na sua pesquisa. O motivo do doutor querer desenvolver essa droga ainda não está claro, mas isso também não importa. A questão é: como se reaproximar do doutor Arkham e como roubar sua pesquisa?

Enquanto Quinn está perdida em seus pensamentos, uma batida se ouve em sua porta. Ela só se da conta disso na segunda vez que a pessoa bate. Ela concede a entrada e surpreende-se com a visita.

-Doutor Arkham, a que devo a inesperada visita? Quinn capricha no seu sorriso mais simpático.

-Tenho andado meio distante não é? Mas bem aqui estou eu, e queria falar algo rapidamente. Prometo não lhe atrapalhar.

Quinn estranha o aparente bom humor do doutor, principalmente depois da forma grosseira que ele a tratou na sua última conversa. Mesmo assim continua sorrindo ao lhe acenar a cadeira a sua frente.

-Pois não doutor. Estou apenas verificando alguns relatórios, nada urgente.

-Bem, minha visita tem um objetivo bem claro. Vim me desculpar com você. Em nossa última conversa eu estava bem aborrecido com outras coisas que nada tem a ver com você. Por isso, me desculpe.

-Tudo bem doutor. E sei que não era nada comigo. Mas como disse naquele dia, eu percebi que o senhor anda estressado ultimamente…

-Por isso além de me desculpar, quero lhe agradecer. Você sempre foi tão atenciosa comigo. Eu considero muito isso.

-Eu aprendo muito com o senhor aqui no asilo. Toda a atenção que posso lhe dar é o minímo.

-Obrigado novamente.

Após uma pausa e um silêncio constrangedor Quinn fala.

-Sua irritação está ligada a vinda de Hugo Strange para cá, não é?

Arkham suspira.

-Sim minha querida. Não tive escolha nessa decisão. Em troca de mais recursos para o asilo a Fundação Wayne exigiu que esse tal Strange viesse trabalhar aqui. Mas eu já conheço bem sua fama e tenho certeza que vou ter atritos com ele.

-Mas porque indicaram especificamente Strange? Parece que foi para lhe irritar…

-Malditos Waynes, sempre se intrometendo em meus negócios. O tom de Arkham que até agora era contido, de repente se transformou em um grunhido de ressentimento e raiva. Quinn conhece a lenda da rivalidade entre as famílias, mas não achava que isso ainda era um problema. Mas agora ela começa a ter uma ideia do que se passa.

-Então foi por isso que Bruce Wayne veio até aqui.

-Sim. Ele veio me propor isso e ainda me fez várias perguntas que não interessam em nada aquele playboy desocupado. Mas eu tive que me sujeitar a isso.

Agora Quinn tenta processar toda essa leva de informações e fica sem ter o que dizer. Mas seu raciocinio é rápido.

-Calma doutor. Como eu já lhe disse, sou sua aliada sempre. Se eu puder manter Strange longe de seus interesses digamos assim, e não deixar que ele atrapalhe seu trabalho isso ajudaria?

A expressão de Arkham muda novamente e ele parece se acalmar.

-Ó minha querida, sempre tão prestativa. Não tenho palavras. Mas vamos deixar o tempo passar. Então veremos como agir.

-O senhor sabe que Strange deve chegar nos próximos dias. Então fico a sua disposição.

Arkham levanta, pega a mão de Quinn e a beija. Em seguida sai da sala sem mais nada dizer.

Quinn agora sabe que tem mais uma forma de se aproximar de Arkham e ganhar sua confiança. Basta que ela também seja uma inimiga de Hugo Strange e de Bruce Wayne.

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Alfred desce até a caverna trazendo uma bandeja contendo uma mistura de péssima aparência composta de proteínas, vitaminas e sais minerais que seu patrão chama de refeição. 

-Precisa de mais alguma coisa mestre Bruce? Pergunta, após deixar a bandeja sobre uma bancada.

-Sim Alfred. Vou lhe mostrar o que descobri, e quero sua opinião.

Bruce continua tratando o mordomo da mesma forma. Alfred já está acostumado, pois seu patrão se fechou tanto no aspecto emocional, que as vezes parece que não nota nada relacionado aos sentimentos, nem dele mesmo e nem das pessoas a sua volta. Porém Alfred nunca deixou de auxiliar quando solicitado e ele o faz com toda boa vontade. Agora Bruce aponta para vários arquivos abertos nos monitores do computador. Como já havia contado sobre a visita a Napier para Alfred ele já começa falando sobre a menina Maxine.

-Maxine Chill, irmã de Joe Chill, ficou alguns anos no orfanato Willowwood e depois seus registros desaparecem. Naquela época os registros eram feitos em papel, não havia computadores. Porém tudo foi escaneado anos depois, inclusive a ficha dela. Mas eles não esqueceriam de escanear o resto dos seus registros. Isso me leva a crer que não foi só sua ficha que sumiu.

-Como assim senhor? Acha que ela foi levada de lá? Com qual propósito?

-Acho que a tiraram de lá para chantagear Chill. Se ele se importava com ela, ameaçá-la para obrigá-lo a cometer um crime seria uma forma de ter certeza de que ele o faria. Inclusive admitindo a culpa, se isso garantisse a segurança da menina.

-Então é preciso saber quem a tirou de lá.

-Creio que a diretoria do orfanato está envolvida, mesmo que indiretamente. Eles foram coniventes com isso. Mas o diretor da época, Barrymore morreu a sete anos. E o orfanato fechou a mais de dez anos, então é difícil ter maiores informações. Preciso descobrir isso com outras pessoas. Mas o orfanato tinha muitos funcionários.

Enquanto pensam, Bruce e Alfred olham fotografias de festas e eventos envolvendo as crianças e os funcionários. Em uma delas, feita no natal, estão todos reunidos, mas Alfred nota algo em particular.

-Veja esta fotografia senhor. Maxine está abraçada a uma funcionária. Ambas parecem bem íntimas, é o meu palpite. E veja, na legenda da foto consta o nome dela, Mary Cohen. E se o senhor procurasse por ela? Se ela tinha intimidade com a garota, talvez saiba algo que os registros não mostram.

-Bem observado Alfred. É uma ótima ideia. Vou procurar registros profissionais de Mary Cohen e descobrir por onde anda. Logo farei uma visita para ela.

-Senhor, se me permite uma sugestão.

-Claro.

-Esta senhora já deve ser idosa agora e possivelmente é inocente. Eu acho que uma visita do Batman pode ser um tanto traumatizante. Que tal uma outra abordagem?

-Tem razão Alfred. Nesse caso acho melhor Bruce Wayne ter uma conversa com ela.

Após localizar o endereço de Mary Cohen, Bruce e Alfred partem para lá. Ao invés de esperar no carro, Alfred foi convidado a entrar junto. O mordomo tem uma idade mais próxima da de Mary e isso pode ajudar a que ela se solte. A princípio a senhora idosa estranha a inusitada visita, mas em alguns minutos já estava mais a vontade e contando histórias do passado como todo idoso gosta de fazer. Porém quando Bruce mostrou a foto de Maxine uma melancolia cobriu os olhos de Mary.

-A senhora sabe o que aconteceu com ela? Pergunta Bruce

-Ninguém sabe. Um certo dia uns enfermeiros a levaram e nunca mais a vimos. Não pude nem me despedir. A pobrezinha era muito apegada a mim. Até hoje penso nela. Ela já deve ser uma moça crescida.

-Sim, ela deve ter quase trinta anos agora. Mas a senhora disse enfermeiros. Eles eram de onde?

-Eu não sei. Eles não tinham identificação nenhuma. Mas Maxine não estava doente, isso eu sei. Eu tentei descobrir o que aconteceu, mas ninguém falava nada.

-A senhora falou com o diretor da época, Barrymore certo?

-Eu tentei. Mas aquele homem nunca foi boa pessoa. Se fosse por ele as crianças dormiam no chão frio. Por sorte eu e as outras funcionárias estávamos lá para proteger as crianças.

-Como ele está morto, não temos como indagá-lo sobre isso. Mas a senhora pode me dizer algo mais sobre ela? Ela recebeu alguma visita antes de ser levada? A senhora notou algo estranho dias antes?

-Não, estava tudo normal, pelo menos que eu saiba. Mas senhor Wayne porque tudo isso? O que o senhor quer com Maxine?

-Eu só quero encontrá-la. Saber se está bem. É um dos trabalhos da Fundação Wayne.

Após uma pausa e um suspiro, Mary Cohen fala com a voz embargada.

-Espero que o senhor consiga achá-la. E se souber algo dela pode me avisar?

-Eu vou encontrá-la e lhe darei notícias. Quem sabe ela possa vir lhe visitar?

Os olhos da velha senhora se encheram de alegria e esperança. Alfred sentado ao lado dela passo o braço por seu ombro, a confortando.

-Sim, seria ótimo.

Na volta para a mansão Bruce e Alfred não conversam. Ambos estão contagiados com a tristeza da velha senhora. Até que Alfred resolve quebrar o silêncio.

-O que o senhor achou da conversa? Alguma ideia do paradeiro de Maxine?

-Se foram mesmo enfermeiros que a levaram não há como saber. Eles podiam ser homens contratados com roupas de enfermeiros e ela pode ter sido levada pra qualquer lugar. Porém esse não é o meu palpite. Eu relutei em dizer isso até agora, mas você já deve saber de quem eu suspeito não é Alfred?

-Creio que sim senhor.

-Quando voltarmos para a caverna vou fazer mais uma pesquisa, que creio, será definitiva.

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São oito horas da manhã quando o doutor Hugo Strange chega ao asilo Arkham. Vestido em um costume azul escuro, ele tem um ar muito seguro e imponente. Mas o lenço púrpura que usa ao invés da gravata conecta o doutor com sua fama de excêntrico. A barba escura, contrastando com sua cabeça careca e os óculos de lentas grossas reforçam ainda mais essa impressão. Harley Quinn observa Strange de uma janela no terceiro andar do asilo. Ela se dirige para a entrada para recebé-lo com um largo sorriso e um caloroso aperto de mão. Após as apresentações Quinn guia Strange pelo asilo lhe mostrando tudo.

A conversa entre ambos flui facilmente. Strange tem uma voz insinuante, grave e calma. A cadencia com que fala é quase hipnotizante, pensa Quinn. Ele causa uma impressão forte com certeza. Durante a caminhada Strange pergunta.

-E quanto ao doutor Arkham, quando vou conhece-lo?

-Ele está muito ocupado cuidando da administração do asilo, mas tenho certeza que assim que possível ele falará com o senhor.

-Sem problemas, acredito que deve ser uma tarefa de muita responsabilidade, principalmente por ser uma instituição criada por sua família.

-Exatamente, por isso ele é muito zeloso em relação ao asilo. Mas ao mesmo tempo ele não é muito afeito a socialização, o senhor entende não é? Quinn fala com uma naturalidade e simpatia que faz com que Strange mal perceba o que ela fala, e sim apenas como ela fala. Apesar de sentir que foi bem aceita por Strange, Quinn desconfia que ele não é um homem que se manipula facilmente. Mas a tática dela já está bem definida. Diante de Strange se mostrar como aliada. E perante Arkham mostrar que ela está sempre contra Strange. Ela espera com isso conseguir cada vez mais a confiança de Arkham, para poder extrair seus segredos em breve. Quanto a Strange, é importante criar um laço com ele, pois pode ser um importante aliado no futuro.

Após aproximadamente uma hora conhecendo o asilo Quinn leva Strange até a sala que ele irá ocupar.

-Vou até minha sala e em seguida lhe enviarei alguns e-mails importantes e mais tarde peço que alguém lhe passe mais detalhes da rotina de trabalho. Está bem assim?

-Perfeitamente doutora Quinn. Muito obrigado.

-Disponha. Bom primeiro dia de trabalho.

Quinn sai da sala deixando para trás um suave aroma âmbar no ar e uma forte primeira impressão.

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Na caverna o hiper computador está gerando uma imagem de como seria a aparência de Maxine nos dias de hoje. Quando o processo termina Alfred e Bruce olham para ela atentamente.

-Agora Alfred vou cruzar essa imagem com o banco de dados e veremos se a encontramos.

Depois de alguns minutos o resultado é zero.

-Eu diria que ela sumiu, mas torço para que não esteja…

-Não Alfred. Quem levou a menina precisa mantê-la viva e bem. Ou Joe Chill poderia revelar a farsa. Eu acredito nisso. E eu vou achá-la. Por Maxine, pelo caso, por Mary. E já sei como fazer isso.

No dia seguinte Bruce Wayne faz mais uma visita inesperada. Dessa vez para o recém admitido doutor Hugo Strange na sua sala no asilo Arkham.

-Vim lhe dar as boas vindas doutor Strange, é bom tê-lo trabalhando aqui no asilo.

Strange é um homem alto, careca e com uma barba bem delineada no rosto. Os óculos de lentes grossas lhe dão uma aspecto quase cômico, mas a seriedade e segurança em sua voz demonstram sua verdadeira personalidade.

-Eu agradeço senhor Wayne. Creio que será um grande desafio em minha carreira trabalhar aqui. Começando por ser aceito pelo diretor do asilo.

-Ah, o doutor Arkham. É apenas uma questão de tempo para ele.

-Como?

Bruce Wayne pigarreia e diz:

-Quis dizer que ele precisa de tempo para se adaptar a uma nova realidade. Sabe como são os velhos, diz Bruce com um sorriso. Strange retribui com uma risada discreta.

-Sabe doutor Strange, desde que nos conhecemos naquela convenção ano passado, eu venho batalhando para que trabalhasse aqui no asilo. Algumas auditorias mostraram que o asilo está com problemas, e eu e a doutora Thompkins temos total confiança em mudanças para melhor com o senhor aqui.

Strange lembra bem daquela convenção, quando após ministrar uma palestra sobre novos métodos de recuperação de criminosos mentalmente desequilibrados, foi procurado por Bruce Wayne. O bilionário causou uma grande impressão no doutor. Strange tem entre seus talentos analisar com perfeição a personalidade de uma pessoa após conversar alguns minutos com ela. O que lhe chamou a atenção em Wayne, foi que parecia que ele estava o tempo todo em conflito com ele mesmo. Tentando parecer algo que não é. Porém Strange ficou em dúvida, pois o conteúdo da conversa foi muito profissional e ele não sabia dizer se a preocupação de Wayne com o asilo era uma encenação para justificar seu cargo na fundação ou se seu ar despreocupado era a encenação de alguém que tem um grande segredo para esconder. Essa impressão associado ao histórico de vida de Wayne, o faziam um personagem digno de ser observado mais de perto. De qualquer forma ele tinha interesse na proposta, mas não podia aceitar na época. Mas assim que pôde aceitou, pois Wayne ainda o intrigava e ele queria ter a oportunidade de falar mais com ele.

-Bem, estou me habituando ainda senhor Wayne, afinal é meu primeiro dia. Mas quero muito contribuir da melhor forma possível.

-Claro. O senhor deve saber que a fundação Wayne financia o asilo a muito tempo e após uma recente enxurrada de criminosos insanos surgir em Gotham tivemos nosso interesse redobrado.

-Sim, inclusive fiquei sabendo do estranho caso do doutor Crane. Me pareceu bem incomum ele vir para o asilo?

-Sei tanto quanto o senhor. O doutor Arkham é bastante reticente quanto ao assunto.

Strange coça a barba e pensa um pouco. Ambos ficam em silêncio. Wayne não quer entrar nesse assunto e antes que Strange possa fazer um comentário desvia a conversa para o tema que ele realmente deseja.

-Mas a fundação tem muitos interesses e no momento estou ajudando pessoalmente em uma busca por uma menina desaparecida a quase vinte anos. Ela estava no orfanato Willowwood e depois de algum tempo sumiu sem deixar rastros.

-Mas porque tentar encontrar ela depois de tanto tempo?

-Na verdade nem acho ser possível encontrá-la, mas eu prometi para uma velha senhora que tentaria, então continuo procurando.

Strange observa Wayne com a expressão de profundo interesse, mas no momento não é tanto o assunto que lhe prende a atenção, mas sim a aparente despreocupação que Wayne tenta imprimir em sua fala, mas que não convence Strange. Ele percebe que o assunto é um pouco mais sério. Será que Bruce Wayne está jogando com ele? Qual seria seu objetivo? Strange resolve estender o assunto para ver onde ele chega.

-Como você está fazendo essa busca senhor Wayne? Tem vocação para detetive? Ao dizer a última frase Strange tem um discreto sorriso no rosto. Wayne ri antes de responder.

-Não tenho talento para nada disso. Claro existe uma equipe da fundação incumbida da busca, mas eu me comprometi pessoalmente, então estou sempre com a imagem da menina aqui comigo. Ao dizer isso retira do bolso a imagem gerada por computador da possível aparencia atual de Maxine. Esse gesto um pouco apressado deu a Strange mais uma pista de que existe algo nas intenções de Wayne. Strange o analisa minunciosamente e Bruce nem mesmo desconfia.

-Posso ver a foto dela?

-Claro, esta é uma imagem de como ela deve se parecer hoje. Eu tenho várias cópias, pode ficar com essa. Ainda tenho esperança de que em um acaso do destino, um golpe de sorte, ela apareça. Não sei. A velha senhora Cohen ficaria muito feliz.

Strange concorda com um movimento de cabeça, mas nada diz.

Eles encerram sua conversa com as despedidas habituais e os desejos de bom trabalho.

Ao sair Wayne deixa Strange curioso. O que haveria por trás desse procura? Ou melhor, o que você está escondendo Bruce Wayne?

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São três horas da tarde quando Bruce Wayne entra no prédio que tem seu sobrenome na fachada. Na segunda visita do dia Bruce vai falar com um grande cientista, diretor da Wayne Tech e seu amigo.

-Olá Lucious, como tem passado?

-Bem senhor Wayne. E o senhor?

-Estou bem. Mas seu bem estar é que me preocupa.

-Ser sequestrado com certeza é uma experiência bem desagradável, mas por sorte Batman apareceu para me salvar. O sorriso discreto de Lucious ao falar demonstrava com sinceridade que ele não tinha nenhum ressentimento. Wayne assente com uma reverência. Ambos tem uma espécie de pacto de silêncio sobre a verdadeira natureza de suas conversas. Mesmo assim depois disso Lucious se mostra muito preocupado com a saúde de Wayne, afinal ele tinha levado um tiro no peito. Após se desvencilhar do assunto Bruce chega ao seu ponto.

Eu desconfio que seu sequestro foi uma isca para uma armadilha. Eles não tinham interesse real em você. Infelizmente dois homens pagaram com as próprias vidas e você correu grandes riscos.

-Joseph Altman e Matthew Bedford. Sim, Altman era um bom homem. Entenda que eu não posso simplesmente esquecer a morte dele, Altman trabalhava comigo a mais de dois anos. Eu não culpo o Batman. Mas quero que os verdadeiros culpados paguem.

-A justiça vai chegar para eles.

-Sim, eu conto com isso. Fox suspira e após uma pausa.

-As vezes acho que fomos longe demais. Que ultrapasamos muitos limites. Mas o que me assusta é que sinto que sou capaz de ir mais longe. Desculpe as divagações de um velho, mas…

-Calma Lucious. Eu entendo. Você e eu partilhamos essa dor que traz o desejo de justiça e …

-Não. Não justiça, mas vingança. E isso não era o que eu tinha em mente.

-Se quer um conselho de amigo, tente não pensar assim. Só vai atrapalhar o que temos que fazer, que é nos concentrarmos em achar os culpados. Nossa consciência pode esperar. Os nomes de Altman e Bedford vão ser honrados.

Fox esta um pouco abalado, mas concorda. A morte de alguem que ele amava é a tragica ligação que partilha com Bruce Wayne. Mas agora eles tem muito mais em comum. Eles são cúmplices de vários crimes, assim os juizes entenderiam. Por melhores que fossem suas intenções, eles já tinham ultrapassado para o lado de quem combatiam. Mas que outra forma haveria de fazer isso? Essa discussão eles já haviam tido outras vezes e nada iria mudar se voltassem ao assunto agora.

Bruce ainda sente a necessidade de desculpar-se com seu amigo.

-Lucious eu sinto muito, você poderia ter…

-Senhor Wayne não há porque se desculpar. O senhor não teve nenhuma culpa em nada disso. Portanto fique tranquilo. Nossas atividades envolvem um certo nível de perigo, claro alguns estão mais preparados para lidar com ele, mas eu vou sobreviver e não culpo o Batman por nada disso. O único culpado é Oswald Cobblepot.

Fox é um homem muito inteligente e Wayne sabe que ele conhece seu segredo, porém finge não saber. É muito melhor para ambos que as coisas sejam assim. Mas mesmo com as palavras tranquilizadoras de Fox, Bruce ainda sente-se culpado.

-Mas creio que algo mais o trouxe aqui, não é senhor Wayne? Alguma manutenção talvez?

Wayne sorri, a capacidade de Fox de manter o bom humor realmente lhe impressiona.

-Na verdade esta mais para reconstrução total.

Em seguida ambos conversam sobre o controle remoto dos drones, um novo projeto de radar e principalmente sobre a reconstrução do Morcego. Ao final da conversa o clima entre ambos está melhor. E Bruce vai embora feliz por ter Fox ao seu lado. Fox pensa que é bom que Gotham tenha alguém como Bruce para olhar por ela.

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Hugo Strange passou seu segundo dia de trabalho vasculhando os arquivos do asilo. Wayne não tocou nesse assunto por acaso. Talvez a menina tenha passado pelo asilo, ou é isso que Bruce desconfia, pensa Strange. De qualquer forma não custa tentar.

A busca empreendida por Wayne lhe intrigou. Nem tanto pela procura em si, mas pelos interesses obscuros que a motivaram. Se pretende saber mais sobre o misterioso Bruce Wayne, essa é uma boa oportunidade de aproximar-se. Mas Strange não encontra nem sinal da moça no sistema informatizado do asilo. Decide então falar com a simpática doutora Quinn, afinal ela pareceu tão prestativa, talvez possa lhe ajudar. Ela estranha o pedido de Strange, que não diz o motivo dessa pesquisa, mas ela tem o objetivo de ter Strange como aliado, então o auxilia indicando para ele os arquivos que ficam no subsolo do asilo. Uma velha papelada da era pré-informática de antigos pacientes que hoje não interessam mais a ninguém. Mas Strange não crê que o que procura esteja lá.

-Mas doutora Quinn, se essa moça deu entrada aqui, deve ter sido a cerca de vinte anos. Não são arquivos tão velhos assim.

-Não são apenas os registros antigos que ficam lá. Mas também os que deveriam ser esquecidos, me entende?

Strange entende o que Quinn quis dizer. Ele já percebeu que existe uma aura de mistério que envolve o asilo e todos que passam por lá. Esse foi um dos fatores que o motivaram a aceitar o emprego em Gotham. Uma cidade com tantas curiosidades merece ser vista mais de perto. Agora Strange esta dentro do mistério e isso o excita deveras. Strange fica até tarde da noite vasculhando os velhos arquivos empoeirados. Ele fica sabendo de casos bizarros e assustadores de antigos internos. Esse passado obscuro do asilo diz muito sobre a atmosfera que cerca a instituição. Mas talvez em outro momento ele se dedique mais a conhecer esse passado, no momento seu foco é em encontrar a menina desaparecida. Já são duas horas da manhã quando ele desiste de procurar. No dia seguinte, ignorando outros afazeres ele se esqueira novamente para o subsolo para continuar sua procura. Após várias horas remexendo em pastas, ele encontra uma datada de vinte anos atrás de uma paciente denominada, assim como várias mulheres indigentes, apenas como Jane Doe. A aparência dela é muito similar a imagem que Bruce lhe mostrou. Rapidamente ele envia uma mensagem para o número que Bruce havia lhe fornecido no dia da visita.

Bruce, creio ter encontrado a menina. Ela deu entrada no asilo a vinte anos. Estou lhe enviado em anexo uma foto que fiz do arquivo.

Atenciosamente H.Strange.batman_the_dark_knight_rises_logo_by_elatik5-d56ybp3

Bruce chega em sua mansão após passar o dia resolvendo questões da Wayne Tech. Apesar de estar pensando obsessivamente no caso que deseja resolver, ele sabe que precisa manter o personagem Bruce Wayne na ativa. Ao entrar na mansão ele está com um sorriso no rosto que Alfred não lembra de já ter visto em seu patrão desde sua volta para Gotham.

-Alfred eu encontrei, eu encontrei Maxine Chill. Ou pelo menos uma pista muito boa. Aparentemente ela foi internada no asilo a vinte anos.

-Então hoje é o dia das boas notícias, pois minha busca também teve resultados.

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Cinco dias se passaram desde a última conversa entre Aigner e Cobblepot. Uma conversa pautada por uma grande discussão. Cobblepot não tem vocação para ser manipulado ou receber ordens e por isso todo o plano com seus aliados misteriosos tem sido um grande exercício de paciência para ele. Mesmo que o plano inicial estivesse longe das atividades que ele costuma empreender, a ideia toda era boa e de qualquer forma ele estava preparado para que o desfecho fosse melhor para ele do que para seus aliados. Era só questão de aturar Aigner um pouco mais. Só precisava acatar mais um pedido dele e o plano estaria quase concluído. Engula o orgulha, respire fundo, pensava consigo mesmo.

Cobblepot tem entre suas empresas de fachada, uma de transporte náutico. Ele só precisava enviar um navio de Gotham para um porto na Albânia e cerca de um mês depois uma grande entrega de armas seria realizada. Os contatos de Aigner no leste europeu despachariam as armas que serviriam para espalhar um composto químico que iria inviabilizar a vida em uma região de Gotham. A idéia inicial era que Crane e Isley trabalhassem juntos na criação do composto químico, porém com o fracasso de cooptar Crane, Isley ficaria incumbida da tarefa. Na verdade ela já estava trabalhado na arma biológica a algumas semanas, seguindo orientações enviadas pelo próprio Aigner, vindas de seus cientistas na Europa.

Mesmo que os mercenários de Aigner não tenham conseguido tirar Batman da jogada, dessa forma protegendo os outros negócios de Cobblepot, o plano seguia bem e no momento Batman não poderia interferir em nada. Pelo menos é o que Cobblepot imagina.

De repente o comunicador em sua mesa indica que ele tem uma visita. Imediatamente o faz entrar.  

-Ora, ora senhor Layton, que presente inesperado o senhor veio me trazer?

-Esse aqui é o Face Falsa, com sua cara verdadeira.

Pistoleiro puxa pelo braço, fazendo entrar na sala de Cobblepot, um homem cuja aparência passaria despercebida em praticamente qualquer lugar do mundo.

-Eu o flagrei lhe espionando. Pensei que talvez o senhor quisesse fazer umas perguntas para o cretino.

-Pois bem, devo admitir que por essa traição eu não esperava. Apesar disso vejo o lado bom. Vamos ter alguns bons momentos com nosso amigo Face Falsa aqui. 

O homem trazido pelo Pistoleiro tenta manter a calma, mas ele sabe que sua situação  é extremamente complicada.

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